Um saber-fazer ribeirinho que transforma as hastes do bunho — colhido nas margens do Tejo — em mobiliário: tanhos, cadeiras, maples. Uma arte utilitária, ecológica e, hoje, em risco extremo de desaparecer.
O bunho (Typha latifolia e Typha angustifolia) é uma planta aquática perene que cresce espontaneamente nas margens do Tejo e nos paúis ribatejanos — também conhecida como espadana ou erva de esteira. Não é cultivado: é colhido, no seu tempo certo, do ecossistema que o gerou.
A colheita ocorre sobretudo no verão, quando as folhas estão plenamente desenvolvidas e antes da floração. Feita à mão, em épocas específicas, permite normalmente a regeneração natural dos bunhais — mas exige um conhecimento ecológico tão antigo quanto a própria arte: saber onde, quando e quanto colher.
Para além do papel na tecelagem, o bunho desempenha funções ecológicas próprias: fitodepuração da água, refúgio para aves e anfíbios, e contenção da erosão ribeirinha. Salvaguardar a arte é, também, salvaguardar o rio.
A comunidade que ainda domina, por inteiro, o ciclo completo — da colheita ao mobiliário acabado — encontra-se hoje reduzida a um punhado de nomes. Todos com décadas de ofício; nenhum com sucessor garantido.
Entrou na arte por acaso, em 1989, num curso que julgava ser sobre madeira. Tornou-se a figura central da sua divulgação, chegando a representar Portugal na Expo Osaka 2025 com peças e uma oficina interativa em bunho.
Dedica-se também à cestaria, ampliando o domínio técnico das fibras vegetais para além do mobiliário utilitário que define a arte do bunho em Santarém.
Reparte a sua atividade na arte do bunho com funções na autarquia — um sinal de como o ofício, hoje, raramente sustenta uma vida a tempo inteiro.
Historicamente, a produção teve um núcleo importante de oficinas na aldeia do Secorio, praticada por camponeses nos períodos de menor atividade agrícola. Chegou a ter o seu apogeu entre as décadas de 1950 e 1980; hoje, restam artesãos com mais de setenta anos e sem geração que lhes suceda.
Um processo integral: nada se desperdiça e nada se apressa. Ferramentas simples — a navalha, a agulha de bunheiro — bastam para transformar a haste flexível numa peça robusta.
As hastes são colhidas manualmente nos bunhais, no verão, respeitando o ciclo da planta e a regeneração do habitat.
O bunho é seco ao ar, um processo que determina a flexibilidade e a durabilidade da fibra final.
As fibras secas são selecionadas e preparadas para a tecelagem, com a navalha e a agulha de bunheiro como ferramentas centrais.
A tecelagem propriamente dita: um trabalho manual, repetitivo e exigente, que dá forma ao assento, ao encosto, à estrutura.
Tanhos (bancos), cadeiras, maples (espécie de sofás) e mesas — leves, duradouros e confortáveis, com uma estética que só o material natural confere.
Desde dezembro de 2025, um novo regulamento da União Europeia (Regulamento 2023/2411) cria, pela primeira vez, um sistema de Indicações Geográficas para produtos artesanais e industriais — à semelhança do que já existe para vinhos e produtos agrícolas. Pela primeira vez, um território pode reivindicar juridicamente a autoria de um saber-fazer artesanal como este.
A UE não certifica "zonas de artesanato" isoladamente — certifica produtos ligados a um território. É por isso que a estratégia começa por afirmar Santarém, e não apenas o bunho em abstrato, como origem reconhecida do mobiliário desta fibra.
Prazo médio estimado do percurso administrativo: 18 a 30 meses.
A candidatura à Lista da UNESCO de Salvaguarda Urgente parte de um diagnóstico simples, mas implacável: a arte depende dos artesãos, e os artesãos dependem da planta. Falhar um elo compromete os seguintes.
A matéria-prima escasseia, segundo os próprios artesãos — alterações no ecossistema ribeirinho ameaçam a disponibilidade e a qualidade da fibra.
Um número extremamente reduzido de mestres, todos de idade avançada, sem geração de aprendizes que assegure a transmissão do saber completo.
Sem transmissão efetiva, a extinção da prática é uma questão de tempo — não um declínio gradual, mas um risco iminente de rutura.
Documentação exaustiva do saber-fazer, arranque de oficinas-piloto de transmissão e criação da comissão de acompanhamento.
Programas de formação regulares, materiais pedagógicos e promocionais, primeiras exposições, estudo científico dos bunhais.
Consolidação da formação, apoio a novos artesãos, gestão sustentável do recurso e avaliação de impacto do plano.
A arte do bunho ainda não entrou formalmente no circuito de candidaturas a património. O que existe é um anteprojeto — uma base técnica e argumentativa, nascida em contexto associativo, que procura reunir condições antes de qualquer submissão formal.
"Concorrer para perder não vale a pena. Ou se concorre para ganhar, e temos quase a garantia de que ganhamos, ou então não faz sentido" — a estratégia defendida é consolidar primeiro o reconhecimento territorial europeu, para só depois avançar para o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, eventualmente pela via da salvaguarda urgente.
Entre as prioridades identificadas: formação de novos artesãos, envolvimento científico da Escola Superior Agrária de Santarém, e um espaço público permanente — o Mercado Municipal é apontado como hipótese — onde a arte do bunho possa finalmente ser vista na própria cidade.
Fonte: Correio do Ribatejo, "Arte do bunho prepara caminho para reconhecimento patrimonial"